terça-feira, 24 de junho de 2008

isso deveria ter sido publicado na data certa... mas fazer o que...

Estamos em greve? Ou não estamos em greve?
Estamos satisfeitos ou não estamos satisfeitos com nosso trabalho?
Pense um pouco antes de prosseguir essa leitura.
Quando entrei na sala de aula de uma escola pública da rede estadual em 2006, depois de exatos doze anos, foi chocante. Nunca imaginaria que a situação estava nesse ponto. Passados mais dois anos de experiência, tentativas, frustrações e algumas alegrias, sinto-me um pouco a vontade para me manifestar.
Minha primeira conclusão é de que não existe ambiente, clima pedagógico na escola. Seja por culpa do aluno, seja por culpas do professor, seja por culpa da coordenação/direção, seja pela falta de mais funcionários em minha unidade escolar. Este espaço não será dedicado para expor minhas opiniões acerca disso. Só quero enfatizar que a cada dia trabalhado, morre o gosto por dar aula na escola pública (dou aula em mais duas instituições, onde me sinto respeitado e valorizado, tanto pelos alunos como pela direção).
Por isso, considero este momento como crucial. Ou as condições de trabalho mudam, ou sinceramente, não vejo mais motivação nenhuma em estar em sala de aula pública. O desgosto, o stress desse trabalho já interfere no meu humor, no meu comportamento no dia a dia. Poderiam perguntar então porque ainda não saí. A resposta seria um certo idealismo de cidadão. Estudei em escolas públicas desde o Jardim 1. Até o Mestrado, foram 22 anos estudando sem gastar um centavo, recebendo uma formação que me possibilitou escolher a Faculdade de História por gosto e não por falta de opção melhor. (embora hoje não tenha coragem de estimular meus alunos a seguir meu caminho). Por isso, que estou chocado.
Vendo-me do outro lado, com um giz na mão, uma lousa esburacada, uma sala barulhenta, não acreditava que estava em uma escola que no passado fora renomada pela qualidade de ensino. Ainda insistirei nessa jornada, como dever ético, tal como uma retribuição aos impostos pagos pelas gerações anteriores dos meus alunos atuais, que contribuíram com a minha formação. Ainda insistirei, pois acho que tenho potencial para contribuir com a formação dos meus alunos. Tenho compromisso com eles e eles sabem que não estou brincando em uma sala de aula. Mas ao mesmo tempo, preciso de motivação para trabalhar. E essa motivação depende não apenas de interesse de 20% de alunos em uma sala (8 de uma sala com 40!).
Por isso, essa greve significa muito, ou quero fazer com que signifique muito. Não seria infantil a ponto de acreditar que uma revolução educacional aconteceria como resultado dessa greve. Mas vejo como a última tentativa (desesperada? Que seja! diálogo com o governo, democracia no projeto pedagógico, essa cartilha de m****, enfiada goela abaixo já nos mostrou que não faz parte da Secretaria de Educação).
Por isso, ME DECLARO EM GREVE A PARTIR DE HOJE (20/6), disposto a sofrer todas as conseqüências desse ato. Seja para voltar dela com alguma esperança de melhoria, seja para desanimar de vez e procurar outros ambientes escolares, ou até sair da educação.
Além disso, entendo que a situação exige ainda mais uma atitude. Peço para que todos definam suas posições. Ou a favor do governo, da permanência do que esta (ou pior, com o contínuo processo de sucateamento da educação) ou a favor de uma luta por mudança. Nas atuais circunstancias, não existe terceira opção. Ou se entra na greve e se demonstra o descontentamento com o governo, ou se fica nessa hesitação, que dá ao governo margem para inventar dados de baixa adesão dos professores. Ou somos um ou não somos nada. Quanto mais demorarmos para conseguirmos uma adesão maior, mais tempo os que iniciaram o movimento serão prejudicados. Escolha um lado, o do professor que esta ao seu lado todo dia, ou o do burocrata, sentado em sala com ar condicionado, cercado por estatísticas de sucesso da educação.
Hesito ou êxito.

Luís Ernesto Barnabé, Professor de História da Escola Estadual Cardoso de Almeida, Botucatu/SP.
Mestre em História, Bolsista do finado Bolsa Mestrado, cansado dessa farsa da educação de SP